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Sobre a mesa, poesia

A fantástica história de uma profissional que vai muito além do mero bom gosto para preencher nossos sentidos com prodigiosa sensibilidade.

Por Lenora Rohlfs

Olhar, olhar de novo e de novo e de novo. Como se o enxergado fosse novinho em folha. Exercício de quem sabe limpar excessos para abrir novos compartimentos com infinitas possibilidades.

Ticha Ribeiro é assim. Inventa moda. Aliás, desde pequena. Sabe aquelas pessoas que, mesmo que por acaso, descobre cedo que a vida é treino? Pois ela sempre praticou esse seu jeito especialíssimo de ver o mundo.

Primeiro com suas bonecas, na infância. Depois, bom, depois é uma longa história. Some a isso uma avó dotada de uma elegância que, mais do que referência de uma geração, era um norte para a menina Ticha.“Se ela usasse um vestido de poá em uma manhã ensolarada de maio, pode saber que é porque o tecido e aquela exata luz do dia comungavam a mesma intenção”, ela me explica hoje, muitos anos depois.

ticha

Essa sofisticação precisa, Ticha soube acrescentar às suas produções de moda, muitos anos mais tarde. A mãe também foi de fundamental influência: criava disputadas coleções de acessórios e incentivava a filha a fazer o mesmo. “Por que você não cria uma coleção pra as meninas da sua idade?”

Era também uma das pioneiras a importar roupas cheias de bossa para Belo Horizonte e assim, Ticha se acostumou, na adolescência, a acompanhá-la em viagens que ora incluíam Nova York e Paris, ora abriam rotas menos óbvias, como Amsterdã, por exemplo.

Pois foi esse universo que fornecia boas ferramentas para lapidar seu senso estético, que influenciou Ticha a optar pelo curso de publicidade como primeira opção profissional. Com ressalvas, claro: “Eu escolhi publicidade, mas o foco já era moda”, lembra.

Antes mesmo de se formar, sua agenda já estava movimentada com a demanda de produtoras de vídeo e agências de publicidade. Logo, logo chamou a atenção do mercado por seu trabalho detalhista e olhar apurado. Convivendo com pessoas expoentes do meio, Ticha ganhou fama como produtora de moda também fora de Belo Horizonte, cidade onde nasceu e vive.

A essa altura, a publicidade perdia terreno, enquanto ela vislumbrava novos caminhos.  Resolveu fazer um curso com Giovanni Frasson, que há 25 anos é diretor de moda da Vogue Brasil. Daí, começou a fazer catálogos e desfiles em BH, São Paulo, Rio, ou onde mais requisitassem seu trabalho. Tem muita história pra contar desse tempo, de convívio com grandes marcas, modelos famosas e especialistas tops do mundo da moda que, aliás, continuam fazendo parte da vida da Ticha.

Bom, esse lado da profissional, resumido nesse texto (que poderia render um livro delicioso), muitos conhecem, pelo menos em parte. Mas gente competente é assim mesmo: costuma sair da casinha e pensar além. Gosta de inventar moda. E é aí, nessa parte da história que começa um capítulo encantador.

Era uma vez uma mesa.

“Disso eu sempre gostei, de enfeitar as coisas.” O começo desse novo momento de Ticha Ribeiro pode ser definido nessas poucas palavras.

As mesas foram eleitas, não porque uma tendência ditada lá longe disse que era isso o que deveria ser feito. Elas foram surgindo, cada vez mais deslumbrantes, uma a uma, porque carregam para a profissional um apelo simbólico: “Mesa é lugar de encontro, de partilha, de dar e receber. Mesa é um lugar sagrado”.

Se essa nova página da profissional chega nesse momento para nos arrebatar a visão, é bom saber que não foi um estalar de dedos ou uma varinha de condão que deixou tudo tão impecavelmente belo.

Há mais de 10 anos que ela adora inventar mesas. Cada uma com seu clima, sua beleza, seus detalhes. Cada uma única, inigualável, executadas por uma perfeccionista apaixonada pelo que faz.

O que antes era uma elegante brincadeira para receber os amigos ganhou vida própria.

Nada daquilo que está sobre a mesa foi uma escolha automática. Cada mínima peça tem muito a contar. O resultado é um conjunto em que a harmonia está em tudo.

As pesquisas de Ticha não são estabelecidas pela ordem de arquivos racionalmente organizados. Ela é intuitiva. Tudo que a toca, fica lá dentro, guardado, maturando. No momento em que está fazendo algo autoral, essas referências afloram. “Tudo que realmente vivencio e que me marca, uma hora vai aparecer em meu trabalho”.

Ticha desconstrói para propor, em uma nova construção, outra perspectiva. Para desligar o caos, ela evoca a harmonia. Sabe que, para que sua ousadia dê certo, é necessário conhecer bem as regras, entender o contexto, para abrir caminho a novas propostas.

“Algumas regras com o passar do tempo perdem o sentido em um novo conceito. Outras, têm sentido prático. Essas são as eternas. Adoro a mistura de copos, talheres, aparelhos. Mas não mexo na disposição dessas peças sobre a mesa. Existe um motivo para que seja assim.”

 No mundo das delicadezas é fácil entender o que Ticha diz. O que vem depois é o que ela permite ao deixar que a eternidade esbarre no momento em que está criando.

Que bom que Ticha compartilha conosco sua poesia pulsante.

Aprecie sem moderação, mas com cuidado. Sinta as cores, saboreie as formas e, se possível, ouça as texturas (segredinho: tudo aqui fala!).

Inspire-se nesse convite ao bom, ao belo e ao prazer.